Unidade passa a integrar rede da Embrapa em MS e vai disponibilizar dados em tempo real no Guia Clima
A TI (Terra Indígena) Cachoeirinha, em Miranda (MS), no Pantanal de Mato Grosso do Sul, vai ter uma estação meteorológica própria. A iniciativa fará parte da rede de 6 unidades da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) no Estado e integrará as ações de gestão territorial e ambiental indígena.
A estação será responsável por medir variáveis como temperatura, umidade, vento e índices pluviométricos do território e os dados serão disponibilizados quase em tempo real no portal Guia Clima, permitindo consulta pública e acompanhamento contínuo das condições climáticas locais.
Segundo o biólogo e cofundador da Organização Caianas (Coletivo Ambientalista Indígena de Ação para Natureza, Agroecologia e Sustentabilidade), Leosmar Terena, os equipamentos já estão em fase de testagem na Embrapa Agropecuária Oeste, em Dourados, antes da instalação definitiva na comunidade. Ele explica que a estrutura será idêntica à da Embrapa e permitirá a formação de uma série histórica de dados, fundamental para decisões mais precisas sobre gestão ambiental e territorial.
“Teremos um conjunto de dados em série histórica, e isso possibilita uma tomada de decisão mais assertiva, subsídios para planejamento de iniciativas de gestão ambiental e territorial e análise dos impactos das mudanças climáticas”, afirmou ao ressaltar que até agosto a unidade estará em pleno funcionamento.
A gestão da estação ficará sob responsabilidade da Organização Caianas, com apoio técnico da Embrapa Agropecuária Oeste e parceria do Ministério dos Povos Indígenas. Também há cooperação com a Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas).
O protocolo de intenções foi assinado pelo ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, pela presidenta da Funai, Lúcia Alberta, e pela diretora-presidente substituta da Embrapa, Ana Margarida Castro Euler.
De acordo com o documento, a parceria tem vigência inicial de 24 meses, podendo ser prorrogada. O objetivo é fortalecer a produção agrícola sustentável e o etnodesenvolvimento local por meio do uso qualificado de dados climáticos.
A estação também surge como resposta a uma demanda direta da comunidade. Segundo Leosmar Terena, a ideia foi construída durante processos formativos com jovens indígenas em temas ambientais, promovidos pela Caianas com apoio do ISPN (Instituto Sociedade, População e Natureza), no âmbito de edital do Fundo Ecos.
“Os jovens perceberam a necessidade de falar sobre clima, mas não tinham dados específicos do território. Esse processo formativo foi fundamental para consolidar essa ação”, explicou.
Na avaliação da Embrapa, o projeto representa um processo de transferência de tecnologia com foco na autonomia das comunidades. A diretora-presidente substituta da instituição destacou que a ciência deve estar conectada às realidades locais e a estação preenche uma lacuna histórica de dados climáticos precisos na região de Miranda e do Pantanal.
Para o assessor de comunicação da Caianas, Neiriel Terena, a implementação da estação meteorológica se destaca pelo caráter educativo e cultural do projeto. O coletivo será responsável pelo cercamento da torre, pela preservação da área e pela coordenação da produção e difusão de materiais informativos bilíngues. Segundo ele, a principal inovação da iniciativa está na tradução dos dados científicos para o contexto indígena, com uso pedagógico nas escolas da comunidade.
“Uma coisa muito interessante que a gente tem pensado dentro da Caianas é traduzir todos esses dados para a língua terena. Em vez de a gente se basear em dados de outro universo, a gente vai olhar para o nosso próprio universo. Isso reforça a importância desse protagonismo nosso enquanto acadêmicos e pesquisadores indígenas em decodificar esses dados para nossas lideranças e crianças”, afirmou.