Água reaparece em poças, mas não restabelece o fluxo; drenos podem ter reduzido a retenção no banhado
Mesmo após as chuvas dos últimos dias, o Rio da Prata continua sem correr em parte do trecho seco, em Jardim, a 236 quilômetros de Campo Grande. A água reapareceu em alguns pontos do leito e formou poças entre as pedras, mas o volume ainda é insuficiente para restabelecer o fluxo. O trecho se estende por cerca de cinco quilômetros a partir da Ponte do Curê, na MS-178, problema que ocorre pelo terceiro ano consecutivo.
A situação foi observada pelo biólogo e doutor em Ecologia José Sabino, coordenador do Projeto Peixes de Bonito, durante visita à parte alta do rio. "Alguns trechos já apresentam água, mas ela ainda não está correndo. Diferentemente do que podemos imaginar, a água vai surgindo de baixo para cima, como se estivesse infiltrando. Só quando fica mais alta é que começa a correr”, explicou.
Sabino explica que a recuperação do Rio da Prata depende não apenas da chuva, mas também da capacidade do solo, do banhado e do aquífero de absorver, armazenar e liberar água. Na avaliação do especialista a drenagem de parte da área úmida pode ser um dos fatores que afetam a redução da reserva natural que sustenta o rio durante a estiagem.
Área úmida - Com base na comparação de imagens históricas do MapBiomas, Sabino estima que o banhado tenha diminuído de aproximadamente 7 mil hectares, em 1984, para cerca de 5 mil hectares, em 2018 - uma perda estimada de 2 mil hectares. Os números, porém, ainda passam por análise técnica e não foram consolidados em publicação científica. O cálculo considera a extensão histórica da área úmida e as partes posteriormente ocupadas e cortadas por canais.
“É uma estimativa feita com imagens de satélite e muito próxima da realidade, mas os dados continuam em validação”, ponderou.
Banhado - Localizado na região das cabeceiras, o banhado é uma área úmida conhecida como “brejão”. O solo encharcado, a vegetação rasteira e o emaranhado de raízes armazenam parte da água das chuvas e a liberam gradualmente nos meses secos, ajudando a manter a vazão do rio.
“O banhado funciona como uma caixa-d&39;água, mas não é uma caixa oca. É como uma esponja. No período de chuva, a vegetação e o emaranhado de raízes absorvem muita água”, comparou.
Segundo José Sabino, esse mecanismo é especialmente importante na Serra da Bodoquena, onde predominam rochas calcárias fraturadas. Nesse tipo de terreno, chamado cárstico, parte da água infiltra pelas frestas, circula no subsolo e reaparece nas nascentes.
Quando o nível do aquífero está baixo, mesmo a ocorrência de chuva pode não resultar na recuperação imediata do rio.
“A água precisa infiltrar, elevar o nível subterrâneo e voltar a alimentar o rio. O aparecimento dessas poças mostra que alguma água está retornando, mas ainda não existe volume suficiente para ela correr”, afirmou.
As imagens abaixo foram registradas no dia 28 de agosto de 2025 pelo documentarista Fábio Pellegrini:
Drenos aceleram escoamento - Sabino relaciona a dificuldade de recuperação do rio à existência de canais abertos no banhado para drenar áreas úmidas e permitir o aproveitamento do solo por atividades agropecuárias. Essas valas conduzem rapidamente a água para fora do brejo. Assim, parte do volume que permaneceria armazenado no solo e entre as raízes escoa pela superfície e chega mais depressa ao rio.
O pesquisador também estima que uma das propriedades rurais da região concentre aproximadamente 50 quilômetros de canais. Segundo ele, os drenos permanecem ativos, embora a área esteja embargada e existam iniciativas de recuperação ambiental.
“O que acontece quando se faz um dreno? A água, em vez de infiltrar, passa rapidamente pela superfície e vai direto para o rio. É como se estivesse diminuindo o tamanho da caixa-d’água”, explicou.
Ele explica que o efeito se torna mais evidente depois que as chuvas cessam, com menos água acumulada, o que também pode comprometer a recarga do lençol freático.
“Se essa água não foi acumulada, ela corre por cima e vai direto para o rio. Quando para de chover, ocorre uma redução da vazão e também da cota de água no lençol freático”, disse.
Segundo o pesquisador, quando a precipitação se distribui por vários dias, há mais condições para a infiltração. Se o mesmo volume cai em poucas horas, o solo pode atingir rapidamente seu limite e a água escoa pela superfície.
“Normalmente, quando lidamos com questões ambientais, estamos no terreno da complexidade. Há meteorologia, solo, práticas produtivas e os serviços prestados pela própria natureza”, destacou.
Recuperação - Para restaurar a capacidade de retenção do banhado, Sabino defende a interrupção dos canais, a recomposição da vegetação e das cabeceiras e o monitoramento contínuo das chuvas, da vazão do rio e do nível da água subterrânea.
As medidas, segundo ele, devem integrar uma política específica para as bacias da Serra da Bodoquena, abrangendo não apenas o Rio da Prata, mas também cursos d’água como os rios Formoso e Salobra.
Instituições como o Instituto Guarda Mirim Ambiental de Jardim, o Instituto Amigos do Rio da Prata e o Instituto das Águas da Serra da Bodoquena desenvolvem ações ambientais na região. Para Sabino, entretanto, essas iniciativas precisam ser acompanhadas por uma atuação permanente do poder público.
A reportagem procurou o Imasul (Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul) para saber quais ações têm sido feitas para recuperar a região, mas ainda não obteve resposta. O espaço permanece aberto.
› FONTE: Campo Grande News