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Vacina era cotada por até R$ 600 mil por família de falsa enfermeira em BH

Publicado em 30/04/2021 Editoria: Brasil


Troca de mensagens obtida pela Polícia Federal em quebra de sigilos telefônicos revela como operava a família da falsa enfermeira que aplicava o que afirmava ser vacina contra Covid-19 em Minas Gerais. As conversas mostram a abordagem a possíveis clientes, o início de negociação de uma venda que poderia render R$ 600 mil e até uma bronca dada pelo banco, onde os recursos conseguidos entravam, sobre a origem do dinheiro.
 
As mensagens, às quais a reportagem teve acesso, são entre a suspeita, Cláudia Mônica Pinheiro Torres de Freitas, seu filho, Igor Torres de Freitas, sua filha, Daniviele Torres, e o marido de Claudia, Ricardo Carvalho de Almeida.
 
O advogado Bruno Agostini Ribeiro, responsável pela defesa da família, não respondeu aos contatos feitos pela reportagem. Cláudia e Igor, até o momento, são os únicos indiciados, enquadrados por associação criminosa e falsificação.
 
As conversas foram captadas no período entre 11 de fevereiro e 25 de março, data em que a falsa enfermeira, que na verdade trabalha como cuidadora de idosos, esteve na garagem de uma das empresas do grupo de transportes Saritur, em Belo Horizonte.
 
No local houve a suposta vacinação de pelo menos 57 pessoas, entre empresários e parentes, conforme lista apreendida pela PF no local. O caso foi revelado pela revista Piauí.
 
Uma denúncia de vizinhos levou a Polícia Militar à garagem. O boletim de ocorrência relata que ao chegar ao local, na noite da terça, 23, os policiais não encontraram ninguém. A troca de mensagens também mostra como Cláudia deixou a garagem naquela noite.
 
As investigações da Polícia Federal até aqui apontam que a família aplicava um golpe. Em diligências a corporação encontrou soro fisiológico na casa de Cláudia.
 
A PF acredita que era isso o que vinha sendo aplicado pela suspeita. A cuidadora de idosos chegou a ser presa em 30 de março, mas foi solta em 3 de abril por habeas corpus.
 
Mensagens entre Igor e uma pessoa identificada como Fábio em 11 de fevereiro de 2021 mostram que o nome de uma empresa de vacinação do Rio de Janeiro era utilizada no golpe.
 
Igor diz: "É... a minha mãe é enfermeira. É assim. Nem todos vamos ser vacinados com a vacina da Covid e a gente tá disponibilizando a vacina através de um valor. Porque a gente trabalha, ela trabalha na empresa Vacinando. Se você pesquisar sobre a empresa existe, é real, tá? E nós estamos com a vacina do Covid".
 
A reportagem conversou com Fábio, que não quis revelar seu nome completo, mas confirmou a conversa com Igor, a quem conheceu pela internet. Disse ainda ter percebido que se tratava de um golpe: "Sou uma pessoa esclarecida".
 
As investigações da PF apontam que a cuidadora trabalhou para uma empresa de vacinação do Rio, e que apresentou registro falso de enfermagem para conseguir o serviço.
 
À PF a Vacinando informou que Cláudia Freitas trabalhou para a empresa como correspondente em Minas, mas para vacinação contra gripe, e não em 2021.
 
Em 8 de março, conversa entre a suspeita e seu marido trata de negociação a ser iniciada. Cláudia diz: "João quer fechar comigo uma grande quantidade de vacina". Ele quer fechar 500, mil... entendeu? A gente tá falando de dinheiro, de 300 mil, 600 mil reais".
 
A PF investiga quem é a pessoa chamada de João e quanto o esquema pode ter movimentado, já que a mulher cobrava R$ 600 por duas doses.
 
As investigações mostram ainda que a falsa enfermeira esteve em pelo menos três condomínios de alto luxo em Nova Lima, na Grande Belo Horizonte. No Village Terrasse, ficou por duas horas no dia 10 de fevereiro. No Grand Olympus esteve em duas datas, 27 de fevereiro e 20 de março. Foi ainda ao Alphaville Lagoa dos Ingleses, em data não registrada.
 
No dia 23 de março, horas antes de a PM chegar na garagem do Caiçara, mensagens mostram problemas da família com movimentação financeira.
 
Igor diz para Cláudia: "A mulher falou que tá entrando muito dinheiro na minha conta do Santander. É suspeita de lavagem de dinheiro".
 
Não há registro de resposta. "Eu falei com ela aqui. Disse que não vai acontecer nada com a minha conta não. Falei, beleza. Eu só trabalho de enfermagem. Mais nada. Ela falou: ok", continuou o filho.
 
Àss 20h34, Igor volta a falar com a mãe. "Mãe, kd vc". Cláudia responde: "Indo para casa". Depois diz: "chamaram a polícia, mas o cara despistou e a gente saiu".
 
Entre as pessoas que já prestaram depoimento à PF por terem contratado os serviços da falsa enfermeira estão familiares do ex-senador Clésio Andrade e os irmãos Rômulo e Robson Lessa, da Saritur. Todos foram ouvidos como testemunhas e afirmaram terem caído em um golpe.
 
O advogado da falsa enfermeira, Bruno Agostini Ribeiro, não respondeu aos contatos feitos pela reportagem.
 
LEIA A ÍNTEGRA DAS MENSAGENS
 
11.fev
Igor: "Boa noite, tudo bem? Vim mandar uma mensagem para você aqui, mas como lado profissional. É... a minha mãe é enfermeira. É assim. Nem todos vamos ser vacinados com a vacina da Covid e a gente tá disponibilizando a vacina através de um valor. Porque a gente trabalha, ela trabalha na empresa Vacinando. Se você pesquisar sobre a empresa existe, é real, tá? E nós estamos com a vacina do Covid. Se caso você tiver interesse e alguém tiver interesse que você conheça, favor mande entrar em contato comigo. Muito obrigado. Boa noite".
 
Fábio: "Opa. Tá bom. Eu falo sim. Qual a empresa? Não sabia que ia vender. Bacana".
 
8.mar
Cláudia: "João quer fechar comigo uma grande quantidade de vacina". Ele quer fechar 500, mil... entendeu? A gente tá falando de, de dinheiro, de 300 mil, 600 mil reais. Ele quer conversar comigo hoje. Quero ver com ele".
 
Ricardo: "para isso vai precisar de movimentação de escritório. Eu acabei de receber um convite, já mandei pro cara o meu currículo, na Raja Gabaglia, para trabalhar num escritório de engenharia. Estão se vocês fecharem e forem montar um escritório para isso, porque eu sei que a rotatividade vai ser cabulosa, a área operacional, se vocês quiserem eu não assumo lá em cima, entendeu? Se os caras me chamarem. Mas aí vou deixar você conversar com ele primeiro. Beijinho".
 
8.mar
Cláudia: "Ricardo, eu não posso ficar, eu não... dá um tempinho pra mim. Deixa eu parar um pouco porque eu não tenho condição de ficar vacinando e olhando as mensagens que você tá mandando com foto de carro não. O povo é muito chato".
 
20.mar
Igor: "Pelo amor de Deus. Não fica saindo... o Covid tá pegando todos".
 
Cláudia: "Hoje só vou resolver o curso".
 
Cláudia: "Eu sei. Pode não parecer, mas eu me cuido".
 
23.mar, dia em que a falsa enfermeira foi à garagem do bairro Caiçara
 
Igor para Cláudia: "Deixa eu te falar. A mulher falou que tá entrando muito dinheiro na minha conta do Santander. E me perguntou um monte de coisa. Falou que se eu não falasse como eu tava ganhando dinheiro o banco ia encerrar a minha conta. Ia perder o dinheiro. Porque é muito dinheiro. É suspeita de lavagem de dinheiro. Então você toma cuidado".
 
Igor: "Eu falei com ela aqui. Disse que não vai acontecer nada com a minha conta não. Falei, beleza. Eu só trabalho de enfermagem. Mais nada. Ela falou:ok".
 
Não há respostas de Cláudia
 
 
23.mar, à noite
Igor: "mãe, kd vc"
 
Cláudia: "Indo para casa".
 
Igor: "deu mole, ein"
 
Cláudia: "chamaram a polícia, mas o cara despistou e a gente saiu".
 
25.mar
 
Ricardo: "Sua mãe vai ter que cortar o cabelo e pintar".
 
Danievele: "Gente, o problema não é esse. E sim as pessoas que conhecem ela reconhecerem ela".
 
Ricardo: "Todo mundo acha que é de comida".
 
Ricardo: "Covid".
 
Danievele: "O advogado falou para minha mãe ficar despreocupada. Que não vai dar nada para ela".
 
Ricardo: "preocupado com sua mãe".


› FONTE: Folha